Alto dos Pinheiros dos sonhos

Entrevista com Paulo Bastos

Jornalista José Augusto de Aguiar Costa 

Arquiteto e urbanista de renome paulistano, Paulo Bastos foi morador do Alto dos Pinheiros desde 1972. Apaixonado pelo bairro que escolheu para viver e construir sua família (nasceu no Brás, onde passou a infância), Paulo é um de seus maiores defensores. Participou da diretoria da SAAP desde os anos 80.
Preservar o verde, a tranqüilidade ameaçada (pelo tráfego de passagem de veículos crescente), a segurança e a beleza do bairro sempre foram suas grandes preocupações. Além disso, ele deseja também resgatar o um pouco esquecido mas essencial convívio entre os moradores. O relacionamento humano que persiste forte, por exemplo, em lugares como as praças Conde de Barcellos e do Pôr-do-Sol e que ganhou grande alento quando surgiu o Parque Villa Lobos, na década passada.
Uma longa conversa, no escritório do arquiteto em Pinheiros, resultou numa ampla análise sobre a missão da SAAP, a história do bairro e um verdadeiro depoimento de amor ao Alto dos Pinheiros e São Paulo.

Foto: Arquiteto Paulo Bastos e Associados
Foto: Arquiteto Paulo Bastos e Associados

Como nasceu o Alto dos Pinheiros?
O Alto dos Pinheiros é um vale, rodeado por toda uma encosta que desce da região da rua Cerro Corá. O nome é referente à vegetação natural que cobria a região. Tínhamos aqui um mar de árvores araucárias, os pinheiros. Nascemos como um bairro verde, assim como os Jardins, o Pacaembu e a Lapa, criado com restrições urbanísticas (ocupação de 50% do lote mais 50% de área permeável e jardim; além de calçadas verdes e canteiros) pela empresa inglesa City Improvement. O bairro foi projetado pelo urbanista inglês Barry Parker, criador das cidades jardins em seu país.

Qual a importância da preservação do AP para a cidade?

Além de funcionar como um pulmão verde da cidade, o estudo de uma geógrafa da USP sobre as ilhas de calor sobre São Paulo mostra que nos bairros verdes esses fenômenos (causados pela grande absorção e irradiação de calor em áreas com muito cimento e pouco verde, como o Centro) não acontecem. Isso faz com que bairros como o nosso sejam um importante fator de equilíbrio no clima da cidade. As temperaturas médias nos bairros verdes são entre 3 a 4 graus menores que as do centro da cidade.
Outro benefício das manchas verdes, com muitas árvores, é o retorno dos pássaros a São Paulo. Na minha adolescência só tinha pardal e pomba; hoje tem sabiá, bem-te-vi, tiziu, beija-flor, pássaro preto, até coruja. É a biodiversidade criada pelo ecossistema urbano.

Por que a SAAP foi criada?

A SAAP nasceu para defender o bairro das tentativas de mudanças na lei de zoneamento (promulgada em 1972). Queriam alterar a característica de Z-1 (zona estritamente residencial) que predominava aqui e exigia a construção de casas para famílias.
Por isso a SAAP foi formada (1977), lutou e ganhou esse primeiro combate em defesa da manutenção da Z-1. Depois, por muitos anos não tivemos pelo que lutar, até voltar na Prefeitura (durante a gestão Erundina) a discussão sobre mudanças no Plano Diretor de São Paulo.
Nos rearticulamos também, no início dos anos 90, para enfrentar os crescentes casos de usos irregulares: os negócios que surgiam em casas que não eram compatíveis com as características de Z-1. Fizemos então várias ações públicas contra esses estabelecimentos ilegais, mas a Regional Pinheiros foi por muito tempo tomada pela propina e aprovações generalizadas. Mesmo assim, seguimos lutando e começamos a ganhar muitas ações.

Quais as ações notórias ganhas pela SAAP?

Foram muitas. Lembro da escolinha que tiramos da esquina da Av. Professor Fonseca Rodrigues com a Praça Pero Vaz de Caminha; o fechamento da sorveteria Brunella (perto da Praça Panamericana), de uma clínica na esquina da Diógenes Ribeiro de Lima com a Dona Elisa Moraes Mendes, entre outras.
Essas vitórias estimularam os moradores a denunciarem outros usos fora da lei. E as vitórias deram respeito à SAAP. Os ilegais começaram a ficar com medo, ´porque eles defendem o bairro mesmo´, falavam da gente.

Por que a Avenida Pedroso de Morais ficou um pouco fora dessa luta?
Na Pedroso de Morais, a maioria das grandes casas já funcionava como uso irregular, só que como serviços (escritórios). Essa utilização não perturba muito. É diferente, por exemplo, de uma alameda Gabriel Monteiro da Silva, que pela lei de zoneamento é um corredor de serviços. Só que eles transformaram em comércio. Ali eles cortaram as árvores para colocar seus outdoors e placas de sinalização; e pavimentaram as calçadas e o recuo de frente para servir de estacionamento aos clientes, acabando com a área permeável e com a vegetação.
Hoje, outra área atacada pelo uso irregular é a Diógenes Ribeiro de Lima.

O que a SAAP vem fazendo para conter a deterioração dessa avenida, uma das artérias principais do bairro?
Alguns proprietários da Diógenes querem transformá-la em corredor comercial. Só que para isso acontecer a City tem que concordar. É essa empresa, que criou o bairro e tem a escritura das propriedades nele instaladas, que deve anuir com qualquer modificação estrutural no Alto dos Pinheiros. Na época em que se respeitava a Z-1 no bairro, a City ficou meio afastada, deixou a observação da lei a cargo da Prefeitura, mas agora eles retomaram o controle desse processo em virtude dos abusos cometidos.

Outra defesa da SAAP refere-se à diminuição do tráfego de veículos pelo bairro. Como surgiu o problema do trânsito ruim nas horas de rush?
No início dos anos 70, com a construção da Ponte da Cidade Universitária, o bairro começou a ser cortado por dois eixos de tráfego: essa nova ponte, fazendo a ligação com o Butantan e Morumbi; e o eixo em direção ao Ceagesp. Com o passar do tempo, começamos a ficar ilhados pelos congestionamentos causados pelos veículos que fogem dessas artérias entupidas (como a Marginal Pinheiros). Só que nossas ruas não são feitas para isso. São estreitas e não suportam tráfego pesado, pois o solo original aqui é frágil, de turfa da várzea do Rio Pinheiros. E o número de veículos circulando aumentou ainda mais com a construção da Nova Faria Lima, criando um outro eixo viário (que vem lá de Santo Amaro, Itaim e Brooklyn) cortando nosso bairro.

O problema é que a luta contra o tráfego é difícil porque a CET desenha a cidade como quer. Para eles, qualquer rua é boa, não importa se elas são destruídas. O que importa é o tráfego fluir. Isso é decorrente da visão rodoviarista, que privilegia os carros em detrimento do transporte coletivo. Como esse transporte é ruim e insuficiente, a cidade virou um caos, tornando-se um modelo insano de transporte.

Paulo aponta os corredores (desde que bem planejados) e o metrô como a solução mais óbvia e urgente pare melhorar o transporte coletivo e aliviar o tráfego. E ainda conta como São Paulo, por pura falta de visão de um prefeito antigo, perdeu a chance de se transformar numa cidade moderna há quase 100 anos atrás.

Na virada dos anos 20 para os 30 do século passado, o prefeito Prestes Maia recusou proposta da Light (empresa canadense) que queria substituir os bondes pelo metrô. Isso nos anos 20! A mesma proposta foi aceita pelos argentinos em Buenos Aires, que hoje tem uma bela e eficiente rede metroviária. Enquanto isso, nós só temos irrisórios 70 km em pleno século XXI. Teríamos que ter 400 km para comportar o transporte de tanta gente.

Com as atuais linhas em construção, a rede de metrô deve chegar a 150 km, extensão que vai apenas aliviar um pouco os números quase surreais dos congestionamentos na cidade, que acontecem todo dia de semana.

A SAAP, há algum tempo, se notabilizou também por discutir questões mais amplas, referentes à cidade como um todo. Como nasceu essa preocupação?
Ficou claro para nós que mexer em um lugar ocasiona um reflexo em toda a cidade. Por isso a SAAP passou a participar das reuniões e debates na Câmara e Administração Regional de Pinheiros (hoje, Subrefeitura). E fomos além, organizando seminários como o de Meio-Ambiente e da Segurança.

A segurança é uma das grandes preocupações do moradores do bairro. Como a SAAP pensa o assunto?

O Projeto dos Bolsões (fechamento de algumas ruas para impedir o tráfego de passagem, de veículos de pessoas que não moram no bairro) ajudaria bastante a melhorar a segurança (seria mais fácil controlar as pessoas que circulam pelo bairro). O projeto foi elogiado pelas polícias militar e civil, mas infelizmente ainda não foi aprovado.

Como anda o processo de implantação dos bolsões?
Eu fiz para a SAAP, gratuitamente, o projeto dos bolsões. Queria aproveitar a lei da Erundina, que permitia o fechamento de ruas para o trânsito, impedindo o tráfego de passagem pelo bairro. O projeto delimitou 6 bolsões. Contratamos uma empresa de engenharia de tráfego para avaliar o impacto nesse sentido e fizemos uma ampla consulta com os moradores.
Para apresentar o projeto tínhamos que ter maioria simples dos moradores de cada bolsão. Conseguimos em dois deles, mas ocorreu uma reação descabida dos lindeiros (moradores dos bairros vizinhos) afirmando que o bolsão é coisa elitista de quem deseja fechar o bairro. Mesmo assim, demos entrada na Prefeitura. Estávamos esperando uma resposta quando, já na gestão da Marta Suplicy, houve um acórdão na Câmara para passar vários projetos de vereadores. Passou entre eles um projeto que alterava as características dos bolsões. Modificaram a lei exigindo que 70% dos moradores do entorno (os lindeiros) aprovem o bolsão para ele ser criado.
Mesmo depois dessa alteração absurda na lei, seguimos tentando retomar a discussão na Prefeitura. O próprio novo Plano Diretor da cidade fala em bolsões residenciais para evitar o trânsito de passagem.

Outra necessidade da SAAP é uma maior participação dos moradores. Falta também um maior compromisso de associar-se à SAAP. O que pensa sobre esse problema?
O que acontece hoje é um refluxo de participação e compromisso nas entidades em geral. A SAAP faz a parte dela, em defesa do bairro e da cidade, como mostra ao ser parceira do movimento Defenda São Paulo, da qual já fui vice-presidente. Hoje, nós temos um grupo ativista em nossa associação, mas temos dificuldades para fazer os moradores se mobilizarem. Uma das razões é que as pessoas só brigam e se importam por coisas que os afetam diretamente, como a questão da segurança. Para não ficarmos só nisso, precisamos realizar atividades de caráter social e cultural.
Precisamos participar de eventos de alfabetização e outros com as classes menos favorecidas. Outros eventos bem-vindos seriam os de socialização do bairro, como caminhadas e passeios de bicicleta, que já fizemos algumas vezes. Mobilizações para o plantio de árvores, como as 400 araucárias que plantamos no canteiro central da avenida Professor Fonseca Rodrigues, também ajudam nesse processo, se a Regional não resolver passar o trator em cima como fez com essas mudas.
Resgatar a história do bairro foi outra ação importante, com o museu do bairro que expomos em alguns pontos chaves do bairro.

Como mobilizar os moradores, se estão cada vez mais fechados em suas casas? Como despertar a vontade de se conhecerem e participarem dessas ações de socialização?
Nasci no Brás, a rua era o elemento básico de convívio. O lugar da brincadeira, da bicicleta, dos jogos, das festas de rua como a junina. Tinha até festa de casamento na calçada, na tradição italiana. E isso acontecia em muitos outros bairros. A cidade se tornou muito fechada com o passar dos anos, mas nós temos que nos reunir não só para tratar de questões relativas à segurança.
Hoje temos no Alto dos Pinheiros muros cada vez mais altos, com câmeras e cercas eletrificadas, marcando o isolamento dos moradores em verdadeiras fortalezas. Queremos o inverso: sair para a rua, fazer festas para ocupar a rua. O projeto dos bolsões estava inserido nesse ideal, pois o bloqueio das ruas transformaria algumas ruas e praças em verdadeiros centros de lazer e convivência. Um exemplo é a praça Conde de Barcellos. Como é fechada em uma de suas extremidades, há muitas pessoas andando, correndo e conversando em volta dela.
É preciso ressocializar a população para resgatarmos um pouco a vida de bairro em São Paulo.

Difícil esse passado mágico retornar. Os carros e a violência o tornaram quase uma utopia. Ou talvez nem tanto, porque ainda há a possibilidade de se resgatar um pouco da convivência e amizade que era comum entre os vizinhos, acredita Paulo Bastos. Aliás, bons tempos aqueles em que os vizinhos se conheciam, se ajudavam, estabeleciam fortes laços de amizade, até de amor. Mas difícil será enfrentar as novas regras de (des) convivência impostas pela modernidade, mídia e novas tecnologias. Como trazer as pessoas de volta ao espaço público?
Vivemos todos como uns anônimos, estranhos uns aos outros. Faz parte da alienação progressiva das pessoas no relacionamento com a cidade, com grupos de amigos, com a própria família. Faz parte das exigências da produção, competitividade e mídia. Antes as pessoas se isolavam na frente da TV, hoje os responsáveis são o computador e a internet.
Só que as cidades surgiram como um ponto de encontro. Surgiram entre as rotas de caravanas. Esses núcleos de parada eram albergues, locais ao pé do fogo ou uma mesa de taberna onde as pessoas trocavam suas experiências de vida. Esse espírito, do encontro, é fundamental. Ele recupera o aspecto humanístico da cidade.
Hoje esse espírito aparece em poucos lugares, como a feira ou os clubes. Mas permanecem também em algumas praças e podemos trazer de volta ao nosso bairro. Podemos recuperar esse espírito e convivência no Alto dos Pinheiros, e manter a rara qualidade de vida que ainda temos.

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